UMA FORMA DE HABITAR O TEMPO

Ela se foi

como uma brisa fresca ao final de maio,

na virada brusca do tempo.

Sem aviso, sem alarde,

em silêncio.


Não sei como se morre

sem se aperceber da partida;

como não notei

que minha parte maior havia ido.


Perdida nas palavras de Sartre,

nunca imaginei que a náusea

fosse para além de um mal-estar.


Enquanto me ria

da instrução alfabética do Autodidata,

uma náusea maior me tirava

aquilo que sempre reconheci como lar.


Agora parece que o mundo está solto,

sem eixo, sem raízes.


Eu, que sempre detestei domingos,

achei um novo tom

no dia do Sol que com ela partilhava —

ânsia da minha infância.


E então o Sol se tornou cinza,

e, em cinzas, se foi.









Em memória de Leila Magrassi de Lima Ferraz 03/11/1964 – 28/05/2025


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