UMA FORMA DE HABITAR O TEMPO

Nos idos de 1997, quando eu contava então com 12 anos de idade, ganhamos nosso primeiro cachorro: um poodle toy, anunciado no jornal Gazeta do Ipiranga, na época, pelo valor de R$ 100,00 (cem reais) — sim, eu me lembro desse dado. Quando vi o anúncio, saí de mim. E foi assim que o Willy entrou em nossas vidas… Willy Boy.

Os cachorreiros de plantão sabem a importância do primeiro cachorro. O Willy mudou nossas vidas para sempre.

Ele continua presente em minha vida até hoje. Aliás, o Willy literalmente salvou a minha vida.

Certa feita, estava eu em casa, sozinha, dormindo durante a tarde, quando se iniciou um incêndio no quarto, causado por um curto-circuito. Quando abri os olhos, me deparei com uma parede de fogo.

Foi o Willy quem me acordou, latindo desesperadamente. Não fosse por ele, talvez eu não estivesse aqui para contar essa história.

Tivemos a felicidade de ficar com a filha dele, uma filha não planejada, diga-se de passagem, mas que as coincidências da vida trouxeram para nós: Milly.

Foi um nome preguiçoso, escolhido por mim. Virei o W de Willy de cabeça para baixo e aproveitei o nome.

Se o Willy me salvou a vida, a Milly me salvou a alma.

Aos 16 anos, enquanto eu tratava uma depressão profunda, foi ela quem trouxe novamente a vontade de seguir em frente. E que exemplo de vida a Milly nos deu.

Nunca atéconheci ninguém, humano ou não, com tanta vontade de viver. E ela viveu. Por 16 anos.

Beirou a morte e a desviou tantas vezes que, no final, tínhamos dúvidas se ela era mortal. Ela era.

Mas nos trouxe uma lição de vida: sobre a felicidade nas coisas simples, sobre lutar até o final, agarrar-se à vida com unhas e dentes, não desistir nunca… e amar.

Foi o meu amor desesperado pela Milly que me fez querer um pedacinho dela por mais tempo, pois, para mim, imaginar o fim daquele amor era inconcebível. E assim veio a Cindy.

Você talvez ache loucura, mas a Milly sabia o quanto eu queria a Cindy. E essa é uma história que merece ser contada.

Quando a Milly engravidou, na época, dormíamos nós três — Milly, minha irmã e eu — em uma cama de casal.

Uma bela noite, a bolsa dela estourou NA CAMA. Ficamos danadas com ela, achando que havia feito xixi. Mas sequer deu tempo de corrigi-la: percebi a contração.

Não tínhamos experiência com partos de animais, então seguimos à risca o que o veterinário havia dito: deixá-la no local onde dormia, não entrar, não fazer barulho, para que não interrompesse as contrações.

Que nada.

A Milly ficou desesperada quando a colocamos sozinha no quarto. Então fui até lá e me deitei ao lado dela. E ela teve os quatro filhotes ali, colada em mim.

A Cindy foi a primeira a nascer.

Depois de romper a bolsa e limpar a filhote, a Milly a colocou sobre o meu peito. E aquele foi um dos momentos mais lindos que vivi em toda a minha vida.

Se o Willy salvou a minha vida e a Milly curou a minha alma, a Cindy trouxe cor. E aquele amor que nasceu em 1997 aumentou, de geração em geração, como se fosse se somando.

A Cindy também nos presenteou com a linhagem dela. E todos que me conhecem conhecem um pedacinho dela: a Mel.

O que nem todos sabem é que a Cindy também nos deu um menininho: o Snoopy, o Nup, gêmeo da Mel.

Ficamos com ele após muita insistência minha. Afinal, já tínhamos três cachorros, e um quarto era um pouco demais.

Mas ele era filho da Cindy.

A Raquel auxiliou na cesárea, e toda essa bagagem emocional pesou a favor dele.

Ele foi um cachorro meio esquisitinho, meio assustado. Tinha uma dependência emocional tão grande da Milly que pensei que não fosse sobreviver quando ela morreu.

Durante o câncer da Milly, o Snoopy literalmente cuidou dela. E foi encantador de ver.

Ele adorava receber a Mel e correr para latir no portão. E, das lições que eles deixaram, a do Snoopy foi o cuidado.

Finalmente, com a Mel, aprendi sobre o amor incondicional.

Mas essa é outra história.

Após o nascimento dos gêmeos, não tivemos outros poodles, embora confesse que eu tenha tentado… mas, por mil razões, nunca aconteceu.

Com cada um deles, aprendi uma lição sagrada de vida. E me maravilhei no processo.

Mas, principalmente, escrevi estas palavras porque nessa manhã de 2020 o dia amanheceu mais triste, em tons de cinza.

Um dos membros da minha família se foi.

E, assim como a ausência dos demais jamais foi preenchida, a do Nupinho também não será.

Mas serei — e sou — eternamente grata pelo amor que ele me dedicou e pelas lições aprendidas nessa jornada.

Descanse em paz, estrelinha.

Vamos te amar para sempre.


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