UMA FORMA DE HABITAR O TEMPO

Em 2024, atrevi-me a cursar Letras na Universidade Federal de Alfenas. Fiz o Enem, como manda o figurino, passei pelo processo do Sisu e me angustiei com o resultado… Parecia 2004, quando eu prestava vestibular para ingressar na primeira graduação.

Precisava respirar, deixar um pouco de lado o engessamento do trabalho e das responsabilidades domésticas, fazer algo novo para mim. Como escreveu Oswaldo Montenegro em “Metade”: “Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba.” E esse curso, para mim, significava exatamente isso: estudar literatura, escrever melhor, permitir-me levitar. Não fui buscar um papel; minha busca era por oxigênio.

Minha trajetória com a escrita data de 1988; ao menos, é essa a primeira recordação que tenho dela. Minha angústia em aprender a escrever. Aos três anos, eu desenhava hieróglifos e perguntava à minha mãe se era alguma letra; minha decepção era imensa quando a resposta, repetida, vinha: não.

Que aflição. Aos quatro anos, não suportando mais aquilo, implorei para ir à escola. Outra decepção. No jardim de infância, coloríamos e brincávamos de massinha de modelar. Letras que é bom, necas.

Aos oito anos, pedi ao meu pai uma máquina de escrever. Foi quando comecei meus primeiros contos. Até que, um dia, me corrigiram: na história, o mês tinha 33 dias.

— Não existe mês com 33 dias.

Pronto. Por algum motivo, aquilo me doeu tanto que parei de escrever.

Voltei aos dezesseis anos, quando passei a me divertir escrevendo sonetos, debruçada sobre um dicionário. Se eram bons, não sei. Pela minha recente passagem pela universidade, creio que não, mas eram meus. Escrever sempre foi, para mim, uma forma de sobreviver, de estar no mundo.

Na universidade, conheci um professor que me acompanha até hoje. De longe, o melhor professor que tive. Constantemente, peço-lhe opiniões sobre meus escrevinhamentos.

Ainda me lembro da primeira aula dele. Era Estilística. Minha mão suava. Nunca fiquei tão nervosa ao escrever um texto, nem tão aflita pela aula seguinte. Li a correção e respirei aliviada com o comentário ao final:

— Um ótimo começo para o curso.

Algum tempo depois, enviei a ele um poema póstumo, em homenagem à minha mãe, recém-falecida. Mas não era poema. Faltava ritmo, era muito isso, muito aquilo. Foi classificado como “mera confissão sentimental”.

Lembrei-me do conto dos 33 dias.

Felizmente, a essa altura da vida, em vez de abandonar a escrita ao reconhecer minha incapacidade e a falta de “genes”, continuei.

Esse mesmo professor, inclusive, nos apresentou um tipo de poesia que me atrevo a tentar: o haicai. Nunca tinha ouvido falar disso, mas gostei da proposta, especialmente da releitura que ele faz do poema nipônico, trazendo-lhe brasilidade.

Deixei os sonetos de lado, mas, assim como aos dezesseis anos me debruçava sobre dicionários para escrevê-los, hoje uso um app chamado Vocabulary, que me apresenta uma palavra nova todos os dias e, de quebra, tornou-se meu despertador. De algumas dessas palavras nascem meus haicais.

Já não curso Letras, por fatores mil sobre os quais não convém discorrer. Apesar disso, continuo enviando textos a ele, novos e antigos, e ele sempre me responde com um feedback precioso.

Há profissionais que visam à carreira; outros nascem com os “genes”. Ele, definitivamente, nasceu com os benditos “genes”: para ensinar, para escrever e para responder até mesmo a ex-alunos insistentes.

Hoje mesmo, depois de escrever uma crônica nascida de uma conversa trivial com um amigo de outros tempos, recebi um elogio:

— Gostei muito. É a melhor até agora.

Em seguida, veio um estranhamento legítimo, já apontado por ele antes:

— Nenhum reparo de pontuação.

Eu tenho um problema danado com vírgulas. Verdade seja dita, esse “pequeno” defeito poderia ser — e será, espero — sanado com algumas horas de leitura de gramática.

Ele sabe, mas confessei novamente minha ferramenta de revisão: a inteligência artificial. Uma vez, em sala de aula, ele falou sobre a “finitude de carreiras” em razão dessa ferramenta. Nunca acreditei nisso, mas talvez a de revisor esteja realmente em risco.

Escrevo esta crônica como forma de homenagear esse homem, que tanto me ajudou e ainda me ajuda, pedido após pedido. Agradeço-lhe da maneira que ele me ensinou:

Arigatou

Eu prefiro ser grata

Que obrigada

Grata, Eloésio Paulo, pelos ensinamentos e pela paciência.

Agora, se me der licença, vou revisar o texto para ver se as vírgulas estão todas corretas antes de enviá-lo a você.


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