Hoje eu estava conversando com um amigo da faculdade, o Cícero, da época em que cursávamos Direito, nos idos de 2009.
Conversa vai, conversa vem, perguntei como ele e o filho, Viktor, estavam.
— Eu estou bem, o filho também. Crescido, estudando, jogando futsal… está fazendo o que gosta — respondeu.
Comecei a pensar. O garoto realmente deve estar grande. Lembro-me de quando nasceu. Eu residia em Colniza, município de Mato Grosso, algum tempo depois de tomar posse no cargo de analista judiciária. Fiz as contas: era a minha fase de Colniza. Aliás, essa é a minha forma de contar o tempo. Entre as minhas andanças e mudanças pela vida, direciono-me pelos locais em que morei na época de cada evento.
— Está com oito anos — ele disse.
— Manda uma foto, ele deve estar enorme mesmo — respondi.
Recebida a imagem, percebi como o garoto cresceu. Falamos brevemente sobre a importância de praticar esportes — herança do meu pai, karateca, embora eu mesma seja péssima em quase todos eles.
O tempo passa rápido. Estou com 41 anos; o Cícero, com 47. Passamos a falar do tempo. Foi quando soltei um bordão de um banco antigo: “O tempo passa, o tempo voa, e a poupança Bamerindus continua numa boa”. Não bastasse o bordão, por si só, revelar a idade, ainda corrigi os fatos posteriores:
— Na verdade, o Bamerindus nem existe mais. Foi comprado pelo HSBC e depois pelo Bradesco — eu disse.
— Foi isso mesmo — respondeu. — Trabalhei para o HSBC, no primeiro escritório.
— E eu, para o Banco do Brasil — respondi.
Nossos primeiros trabalhos como advogados. Ele nem pensava mais nisso. Eu tampouco.
Foi nesse instante que ele apresentou sua tese sobre o tempo:
“Você já percebeu que a nossa mente, nossa memória, não envelhece, só o corpo? O tempo passa, mas a gente não percebe. A nossa memória, a nossa mente não percebe o tempo passar, ela não registra isso. Só nos damos conta da passagem do tempo quando a gente usa uma referência, seja uma criança ou alguém que fala. Aí você percebe que o tempo realmente passou.”
Inicialmente, discordei. A mente envelhece — minha memória já não é a mesma, o HD está cheio. Mas, ouvindo a defesa da tese, tive de concordar.
Revisitei minhas memórias sobre o assunto. Quando eu era criança, parecia que o tempo nunca passava. Na escola, os anos pareciam todos iguais, a vida era a mesma. Então levantei a minha própria tese: “A gente sente o passar do tempo até os vinte e três, vinte e seis anos, por aí… Ou eu sinto isso porque foi justamente o período em que terminei a faculdade e comecei a trabalhar. Mas, depois disso, o tempo é só uma contagem numérica. A gente não sente mesmo o tempo passar.” Pronto. Filiei-me à corrente dele.
— Eu não olho muito para o tempo passado — ele disse. — Na verdade, a gente só deveria se preocupar com o presente.
— Essa é uma verdade universal, como diria Jane Austen — respondi. (Por algum motivo, sempre cito a Jane Austen quando uma “verdade universal” é apresentada. Meu jeitinho de ser.)
Então, ele começou a falar sobre suas recomendações ao filho:
“Não tenha pressa de crescer. Aproveite a infância. Crescer não é bom, tem muitas responsabilidades. Muitas das coisas que hoje não são preocupação sua, você terá de resolver no futuro, então crescer não é bom.”
Tempo, tempo, tempo, tempo…
Vi-me no Viktor e entendi o anseio dele — crescer logo. Quando eu era criança, tudo o que eu queria era ser “gente grande”. A angústia dele também era a minha. Sempre preferi ficar na roda dos adultos. As conversas eram mais “interessantes” para mim. E, no meu caso, eu queria ter a liberdade, a autonomia de tomar as minhas próprias decisões e dirigir a minha vida, sem a irresignação de ficar à mercê dos pais. Na minha meninice, era isso que “ser adulto” representava. Embora a vida adulta traga, de fato, responsabilidades, em contrapartida, pensava eu, não haveria ninguém nos mandando (quanta ingenuidade minha — mas também, o que esperar de uma criança senão isso?).
Ri de mim mesma, das minhas crenças infantis, do choque de realidade que a vida adulta nos traz — há sempre alguém nos mandando. Descobri isso muito antes da minha fase de Colniza e, quando descobri, comentei cantando: “Aí foi que o barraco desabou, nessa que meu barco se perdeu”. O que mais há de se fazer numa situação dessas além de rir de si mesma?
Ele também riu.
— A gente cresce, e a inocência dá lugar à desilusão — respondeu ele, entre risos.
— A desilusão é a visita da verdade — respondi.
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