UMA FORMA DE HABITAR O TEMPO

Havia uma menina,

um tanto quanto xexelenta,

que sonhava

com o arco-íris.


Não tinha brinquedos.

Não tinha amigos.

Mas possuía

todo o resto.


Estava presente.

Vivia o presente.


Quando sufocada

pela terra,

permitia-se levitar.

Sonhava com o arco-íris —

e com as coisas

do lado de lá.


Um dia,

caminhando pelo campo,

às margens de um riacho,

encontrou

um menino.


De início,

assustou-se.

Não estava acostumada

com gente.


Depois,

deixou-se encantar.


O menino trazia consigo

toda sorte de divertimentos.

E a menina se apaixonou

por tudo aquilo:


o novo,

o não sonhado,

o jamais imaginado.


Na hora de partir,

a menina se agarrou a um deles

como quem se agarra

à própria vida.


Desejou-o.

— É meu —

pensou.


Mas não era.


Não tinha a posse.

Era empréstimo.


Não era permanente.

Era passagem.


Com lágrimas,

despediu-se.

Carregou consigo, no entanto,

o que tanto ansiava —


no silêncio

do seu coração.


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