Na infância, nossos pais são quase uma entidade mitológica. Detentores de todos os conhecimentos do mundo. Quem nunca ouviu um “leva um guarda-chuva porque vai chover” ou “leve um casaco que vai esfriar”, sem compreender bem qual meteorologista mora em casa.
Nosso pai é nosso grande herói; a mãe, um espelho do que se almeja ser. Brincamos de panelinhas, varremos a casa com minivassouras e usamos minirrodos, construímos minicasas e preparamos comidinhas.
Até que vem a adolescência e vira tudo do avesso. Nossos heróis subitamente se tornam obsoletos. Nossos modelos se tornam outros — externos a nós. Estamos nos descobrindo e queremos ser o que não somos.
Quando eles partem, no entanto, algo acontece.
Há algo estranho e inconsolável na orfandade, não importa a idade.
Nossos pais. Nossos primeiros amores. Testemunhas de nossa existência, desde a nossa concepção até o último respiro.
Seria simplório dizer apenas que algo dentro de nós morre com eles. Algo maior acontece: perdemos as únicas pessoas que enxergam a criança em nós.
Aquela que rejeitamos com tamanha intensidade por tanto tempo. E repetimos, vez após vez: “Já sou grande”, “sou adulto”, “sei fazer minhas escolhas e tomar minhas decisões”.
E somos.
Mas nada como ficar doente para voltar a ser criança. Instantaneamente queremos a mãe, o afago, o aconchego, um colo, um cantinho na cama. Não importa a idade.
Ao perdermos os pais, perdemos o olhar daqueles que nos conhecem do avesso desde sempre.
Daqueles que sabem preparar com carinho um suco de maracujá com leite, uma sopa de fubá com alho ou um chá de alfavaca para tirar a friagem do pulmão.
Às vezes, temos a sorte de nos surpreender com um pedaço velho de cartolina, com um pé de criança carimbado, guardado em uma gaveta. Registro de um tempo.
Para nossos pais, nunca envelhecemos. Os anos passam e eles continuam a nos ver com olhar de criança, a nos comprar pantufas de joaninhas, Fofoletes e Moranguinhos.
Tudo parece meio banal até que perdemos esse olhar e precisamos nos despedir de uma parte de nós.
Perdemos aquele lugar para onde corremos quando a chuva despenca. E nossas certezas absolutas se esvaecem.
Quando nossos pais se vão, nossa criança morre com eles. Nos tornamos apenas mais um na multidão.
Pouco depois de perder minha mãe para um infarto fulminante, conversei com meu amigo Vinicius, de Chapada dos Guimarães. Ele havia perdido o pai alguns meses antes, de forma igualmente abrupta e prematura à da minha mãe.
Disse-me algo que foi impossível contestar:
— Me sinto tal qual você, meio sem rumo. Eu me aconselhava com o pai em tudo. Um sujeito de 37 anos também pode se sentir órfão. Mas sinto a voz dele no meu ouvido e no coração. Sem a presença física dele, ele passou a morar dentro de mim, o tempo todo.
Ele talvez tenha razão: os que partem passam a morar em nós. Mas a criança que eles enxergavam, essa não mora em ninguem.
É uma orfandade que corrói os ossos. Ninguém — nem a vida, nem a literatura — nos prepara para o luto, embora tenhamos consciência da impermanência e da finitude da vida.
Mas saber é diferente de vivenciar.
Entre as flores
também jogam na tumba
a joaninha
Haicai de Eloésio Paulo — poeta
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