UMA FORMA DE HABITAR O TEMPO

Ontem, ao voltar do aniversário de uma amiga, olhei pela janela do carro e deparei-me com a Lua.

Linda, cheia, enorme, em tons de amarelo, ladeada por uma pequena nuvem luminosa.

Percorri o trajeto hipnotizada. Comentei com o motorista, que se pôs a observar e fez coro às minhas palavras.

— Merece um vinho — disse ele.

Concordei. Não porque a contemplação precisasse de acompanhamento, mas porque a imagem merecia ser celebrada.

Em vez disso, fiquei ali, parada, admirando.

Bastou-me.

Em meio a tanta informação e tanta pressa, parar para contemplar o luar é um presente.

Pus-me a lembrar dos pores do sol. Nunca assisti a um igual ao outro. Há dias em que o laranja se funde ao amarelo e ao azul; em outros, o céu adquire tons de rosa e lilás. As variações são infinitas.

Aquele céu, tão azul e tão colorido.

O homem, talvez tocado pelo momento — ou como se lesse meus pensamentos —, passou a falar do pôr do sol do dia anterior.

Perguntei se havia registrado.

Respondeu que não.

Respirei.

Nunca fui de fotografar momentos que me trazem paz. Sempre senti que aquele instantezinho entre sacar o telefone e eternizar a imagem me roubaria um segundo precioso do qual não posso dispor.

Numa viagem que fiz em 2018, fiquei desassossegada com os insistentes pedidos de minha mãe para que eu enviasse fotos de tudo. Entendia a curiosidade dela, mas eu não estava ali para registrar.

Queria viver.

Não consigo ser diferente. Há momentos que exigem presença.

Sei que posso acessar imagens de tudo, ou quase, em poucos cliques.

Estou cansada de olhar o mundo através de alguma coisa.

Quanto mais o tempo passa, mais me aperto na cidade.

Nascida e criada em São Paulo, encontrei refúgio em cidadelas do Mato Grosso e, atualmente, numa pequena cidade de Minas Gerais que começa a me parecer enorme.

As cidades estão ficando cada vez maiores e mais barulhentas, não importa quão interiorana eu tente ser.

É como se não coubesse mais ali.

Ou aqui.

Anseio por uma vida com menos telas, menos vigília e mais conexão com o intangível.

Preciso de sossego.


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