UMA FORMA DE HABITAR O TEMPO

Ontem estive na companhia de meu pai. Decidi passar um tempo de qualidade com ele.

Ele ficou muito animado e decidiu colocar na TV uma espécie de jogo de perguntas e respostas.

Passamos por diversos até chegarmos à História do Brasil.

Ali, enquanto brincava e tentava lembrar alguma coisa do ensino médio, uma das perguntas me fez refletir sobre a riqueza de nosso país.

Era algo como: qual foi o primeiro produto explorado para exportação no Brasil? Cana-de-açúcar, soja ou pau-brasil.

Fiquei pensando no solo fértil de nossa nação. Cultivamos cana-de-açúcar, café, soja…

Parece que tudo o que se planta nessa terra dá.

Não pensava em pau-brasil há décadas.

Só me lembrava de seu tronco vermelho, cor de brasa.

Não teve jeito. Precisei fazer uma pesquisa sobre a árvore. Ainda existia? O plantio era permitido?

Bastou iniciar a pesquisa para ser surpreendida por uma árvore enorme, frondosa, com lindas flores amarelas salpicadas naquela grande copa verde.

Imaginei-me numa casa bucólica, com minha árvore de pau-brasil plantada no quintal.

Apaixonei-me.

Tudo nessa terra dá. O que não dá é continuarmos fagocitados pela síndrome de vira-lata.

É uma tendência natural: a grama do vizinho sempre parece mais verde.

Até que a gente atravessa a rua e vai lá, só para descobrir que a grama é sintética.

Assisti há pouco tempo a um documentário chamado Apocalipse nos Trópicos, que explora a influência de nossos amigos do norte do continente e da religião no cenário político nacional.

Vale a audiência.

Geração Coca-Cola.

Pobre Macabéa.

Quando criança, ouvi que éramos o futuro da nação. Décadas depois, constato que minha geração está alienada, preguiçosa e sem futuro.

Reconheço minhas deficiências no conhecimento político. Talvez você também tenha as suas.

Mas, mais do que isso, sei que uma população pouco informada é facilmente manipulada.

A política do pão e circo.

Fomos ensinados a olhar para fora e acreditar que lá era melhor.

Enquanto isso, nossa terra é tão rica e farta de cultura.

Acostumada à Mata Atlântica, fiquei maravilhada quando conheci a vegetação amazônica, com suas árvores gigantes, cujas copas parecem tocar o céu.

O cerrado, a caatinga.

É uma terra de frevo, de bumba meu boi, de cores, calor e receptividade.

Os que vêm ao Brasil se apaixonam. Menos nós.

As eleições estão chegando e talvez não tenhamos tempo suficiente para olhar de verdade para o que está acontecendo no cenário político atual.

Mas podemos fazer diferente daqui a quatro anos.

É um convite.

O que não podemos mais é aceitar, calados, uma realidade causada pela nossa própria cegueira.

O pau-brasil, aquele que deu nome ao país, foi quase exterminado por nós mesmos. Não faltou terra. Faltou cuidado.

Sei que a grama do vizinho pode até parecer mais verde. Mas a nossa é de verdade. Tem raiz.

Por um Brasil que floresça.


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